Frágeis Flores

Não chorou; sua alma era das que não têm lágrimas, enquanto lhe restam forças.

6

3,
Três palavras apenas,
Três coisas pequenas.
3,
Três sorrisos sinceros,
Três amigos austeros.
3,
Três decepções sofridas,
Três dores não esquecidas.
3,
Três encontros,
Três outros desencontros,
3,
Três desejos,
Três vezes o mesmo ensejo.
3,
Três caminhos para seguir,
Três vidas a sentir.

Vazio.

Às vezes eu me sinto quebrado, com defeito, como se alguma coisa importante faltasse na minha vida.


São momentos não importantes, como assistir uma partida de futebol em uma festa, onde os homens ficam o tempo todo dando palpites, xingando e gritando com a televisão como se algo fosse mudar, enquanto as mulheres todas se reúnem em uma mesa onde todas as pessoas do sexo oposto são inimigos e qualquer homem que ousar de aproximar é fuzilado com olhares de tal intensidade que me fazem grato por olhares não matarem.

Momentos assim me fazem desejar um amigo, alguém com quem conversar abertamente sobre quaisquer assuntos de meu interesse sem me sentir mal por não saber quem está no paredão do BBB.

Há muito abandonei a televisão, não deixei de assistir totalmente, pois sempre que vou a casa de minha tia passo o final de semana assistindo, mas em casa, minha TV se tornou apenas um criado mudo, longe de qualquer tomada da casa, a pobre coitada só foi ligada uma vez, quando a comprei.

Seria tão mais fácil abandonar tudo, me perder na vida... Tão mais fácil...

Natal

Já estamos naquela época do ano novamente, os enfeites, os presentes e mais uma vez eu falho em ser contaminado pelo espírito natalino.

Olhando para trás eu vejo que que sempre foi assim, o que parecia espírito natalino não era nada além de me fazer de bom para ganhar o presente que havia pedido. Triste, não?

Hoje longe de casa (o terceiro Natal que não passo junto a meus pais) e crescido, não existe a antecipação por presentes, os únicos que receberei serão apenas os que eu decidir me dar e não preciso fingir que sou uma boa pessoa, pelo menos não para mim.

Ainda assim, como passarei o natal com parte da minha família, precisarei mais uma vez esconder parte do que sou das pessoas ao meu redor, vestir mais uma vez a máscara de felicidade e deixar que todos pensem que eu sou um deles, que o espírito natalino me contagiou.

Eu gostaria de saber como as coisas serão no futuro, se o Grinch finalmente irá devolver meu Natal ou se esse vazio continuará a me consumir.

Irmãzinha

Eu ainda me lembro da primeira vez que eu a vi, meu pai havia ido buscar minha mãe no hospital, enquanto eu e meus outros dois irmãos ficamos ansiosos em casa, com vários papéis-de-carta bonitinhos e cheios de mensagens carinhosas para nossa nova irmãzinha.

Então eles chegaram, meu pai todo feliz dizendo: "Venham conhecer sua irmãzinha!", minha mãe fisicamente esgotada, mas com uma cara que denotava grande felicidade.

Fiquei sentado no sofá enquanto meus irmãos rodeavam minha mãe tentando atrair a atenção daquela pessoa minúscula, escondida atrás de várias camadas de cobertinhas, todas bordadas.
A me ver apenas sentado ali sem esboçar qualquer outra reação, meu pai perguntou: "Não quer conhecer a Ledinha, Ciro?", mas não, eu não queria, tampouco tinha coragem para dizer que não.
A idéia de ter mais um irmão com o qual dividir a já escassa atenção da minha mãe não agradava. Relutante me levantei e fui até minha mãe, agora sentada no sofá com o pequeno embrulho no colo.

Quando cheguei e vi aquela coisinha rosada e com cara de joelho, não pude deixar de pensar: "Como eles podem estar tão felizes? Ela nem consegue abrir os olhos!", mas quando ela segurou meu dedo com suas mãozinhas pequenas e delicadas, não pude deixar de me apaixonar perdidamente.

E apesar dos altos e baixos da nossa relação até hoje, não consigo deixar de esquecer do firme aperto que recebi no meu dedo aquele dia, um aperto cheio de confiança e amor.

Linda melodia

Deitado no meu quarto olhando para o teto, deixando os pensamentos correrem livres pelas pradarias da minha imaginação, a ouvi. A princípio bem baixinho, logo mais alto até ela dominar completamente meus pensamentos.

Uma melodia simples, mais bela. As notas se encaixando perfeitamente umas nas outras, o balanço entre graves e agudos, perfeito. Meus dedos começaram a se mover inconscientemente nas posições das notas, a partitura estava ali, pronta, bastando apenas me levantar e a escrever.

Olho para o lado e vejo minha velha flauta, companheira de muito tempo. Quantas vezes ela não foi a única testemunha daqueles sentimentos que eu não tinha coragem de mostrar a ninguém, mas que eu contava tão facilmente para ela com algumas notas?

A vontade de apanhar a flauta e executar a melodia que estava presa na minha cabeça era muita, mas eu prometi que não o faria. Não, eu não iria compor até que meu coração não doesse mais. A melodia não se conformava em existir apenas na minha cabeça, queria sair e encantar a outros, mas fui firme e fechei os olhos tentando dormir.

Quanto tempo mais até que eu cumpra essa promessa? A dor que vem do meu peito me diz que não será pouco, mas quem pode ter certeza? Até ontem não havia nada ali...

Perdoe-me linda melodia por não te deixar sair e encantar. Eu sou egoísta e ciumento, como eu possivelmente poderia compartilhar você com o mundo? Linda melodia espere aí mais um pouco, até que a promessa tenha sido cumprida...
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Primeiro post depois da repaginação, percebi que ainda não havia escrito nada sobre música e optei por 'Linda melodia' para a estréia apesar de me parecer um pouco triste.
Espero que tenham gostado e que continuem me acompanhando todas as semanas aqui, abraços.

XXXII - Final

Escuta sem ouvir.

Olha sem ver.

Fala sem dizer.

Vive a vida pela metade, no automático, com os sentidos embotados de tal forma que a vida não passe de dias, um atrás do outro, sem grandes mudanças.

Não sofra, mas também não seja feliz.

Não sorria, mas também não chore.

Não odeie, mas também não ame.

Desperta para a vida, abra teus olhos, ouvidos, boca... Abre teu corpo! Joga-te no fogo da vida e deixa que ele te consuma de uma vez e aos poucos, cada pedaço um inteiro teu e assim, inflamado de vida, queima, queima e brilha para mostrar ao mundo que a vida não são dias iguais em sucessão, mas uma surpresa a cada respiração!
-=-=-=-=-=-
Esta meus leitores, é a última postagem do Le Renard sans La Rose.
Foram bons meses desde a primeira postagem até hoje, as postagens assim como minha vida nem sempre foram agradáveis.
Agora resta seguir em frente esperando e lutando para que o melhor venha.
A partir de segunda-feira este blog passará a se chamar Frágeis Flores, o título que inicialmente eu havia planejado e as postagens continuarão, espero que algum dia eu ainda consiga postar aqui a história da Raposa que se apaixonou por uma Rosa.
Vejo vocês na próxima semana, sempre seu,
Ciro Cruz

XXXI - Fragmentos

Com as luzes apagadas o circo era um lugar assustador, totalmente silencioso se não fosse pela música de um realejo que não parava de tocar como se estivesse convidando os mortos para o espetáculo da meia-noite. “Venham todos, o grande circo fantasma está para começar!” disse o mestre de cerimônias em suas roupas rotas sujas de terra. Quase não havia mais carne naquele rosto praticamente decomposto, ainda assim a figura esquelética continuava a anunciar o show com seu eterno sorriso sem lábios, o show dos mortos.
...

Ela não conseguia esconder as lágrimas que insistiam em aparecer sempre que o bardo tocava aquela música no seu velho bandolim. A música não era triste, longe disso, era alegre e a fazia se lembrar os velhos tempos com seus pais na casa do campo. Vai ver essa era a razão das lágrimas, aquela saudade triste de tempos alegres que não voltam, mas que esquentam o coração sempre que nos lembramos deles.
...

Ssshh... Você consegue ouvir? É a Loucura sussurrando a nossa volta. Com sua voz doce ela sussurra mansamente ao nosso redor e logo estamos impregnados Dela. Preenchendo aquele vazio dentro de nós Ela vem, velha Loucura que não pede motivos ou dá explicações. Venha, dance conosco ao som do silêncio, se entregue sem reservas a essa dança de loucos!